UERJ uma relação de amor e ódio
setembro 11, 2009 by Melissa Cruz
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Nem sempre a vida do uerjiano é bem sinalizada
Como na infância, similar ao objeto da escola, a UERJ é um dos lugares em que nós alunos passamos a maior parte dos nossos dias. Exceto o estágio que às vezes nos mata, seja de trabalho ou de tédio. Mas o que verdadeiramente importa é a forma como nós mantemos laços afetivos com a UERJ, o Gigante de Concreto, o Edifício Garagem, ou como prefiram chamar.
De fato nossa universidade tem autos e baixos, e é a maneira que lidamos com eles que forma nossa opinião sobre a ela. Mais ainda, são esses quatro ou cinco anos que serão decisivos na escolha de permanecer na instituição e se dedicar a uma pós-graduação, mestrado e uma vida acadêmica. As experiências pessoais tornam-se coletivas e as angustias e prazeres vividos por todos são mais do que públicos. Eu poderia ficar aqui horas citando todos os momentos, como o trote, as provas finais, os chopps, os amigos, as transferências de curso, as matérias eletivas, a relação com os professores, as formaturas e etc.
Entretanto, em meio a tantos atores que constroem e mantém o que chamamos de UERJ é comum que haja questionamentos. Quem é o responsável pela qualidade do ensino, o corpo docente ou nós, alunos, sobreviventes de um vestibular excludente, e prontos para aceitar desafios? Quem ou que faz da UERJ, a UERJ, com significado de sujeito coletivo, uma massa de pensamentos? Porque a UERJ, sendo tudo o que é parece não sair de lugar e às vezes mal se mantêm em pé? Certo que não há respostas, volto a repensar os laços afetivos.
Como toda universidade pública, falta. Falta ou não vêm. E é essa ausência de investimento, a burocracia excedente e uma estrutura emperrada que dão a UERJ um ar pesado, que desanima qualquer pessoa de permanecer, e acreditar em algum tipo de melhora. Poderia ficar aqui, novamente, durante horas, citando as carências como a rampa que caiu e ficou pela metade, as salas imundas e trancadas de alguns andares, os banheiros com goteira e sem condições de uso, o papel higiênico que é uma lenda, os professores que faltam, as cadeiras que quebram, os livros que não temos nas bibliotecas e etc, etc, etc.
Neste mês de setembro faz um ano que a UERJ viveu “A ocupação da Reitoria”, um manifesto desesperado, sofrido, de pessoas que não concordam com as práticas, de alunos que amam e odeiam, que estão de passagem, em uma universidade que é eterna.
Pensando no assunto, mais uma vez, voltam os questionamentos. Qual é a nossa opinião sobre esse prédio? Sobre essas pessoas? Esse coletivo? Sobre nós mesmos: Uerjianos.
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Mudanças na comunicação
junho 18, 2009 by Melissa Cruz
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Queda da exigência do diploma em jornalismo traz momento de reflexão
Semana turbulenta para quem esperava uma resposta conservadora do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL sobre a exigência do diploma em jornalismo para o exercício da função. Por 8 votos a 1, em uma decisão que ficará para a história, foi decidido que neste país não mais será necessário o diploma de quaisquer faculdade de comunicação social com habilitação em jornalismo para ser jornalista.
De fato isso traz a tona críticas dos que defendem o livre exercício da função, o jornalismo cidadão, os blogueiros, os fotoblogueiros, críticos de web, comunicólogos com outras habilitações em comunicação como cinema, rádio e tv, publicidade, entre outros personagens que, de uma forma ou de outra, faziam jornalismo (merecemos uma pausa para discutir o que é jornalismo) e perante a lei cometiam um crime, pois não eram qualificados por universidades para executar a função como previa a constituição.
Por outro lado, universitários que ralam para passar no vestibular ou pagar faculdades que vão além de suas posses, passam quatro anos de suas vidas se dedicando a profissão que escolheram, tudo para realizar o sonho de ser jornalista, competente, qualificado pelas melhores instituições e realizarem a função social de informar, difundir conhecimento e integrar a sociedade.
Um duelo que parecia não ter fim recebeu um ponto final (ou de exclamação) esta semana. É um momento para pausa e reflexão antes de qualquer coisa. Pensar e repensar como se dará a mecânica de entrar em um meio de comunicação sem a universidade, ou conhecer a Escola de Frankfurt, o gatekeeper, o newsmaking, a piramide invertida e o lead. Pensar como serão os novos meios e mídias cheios de outros profissionais recheados de experiências fantásticas em outros setores. Procurar entender porque todos querem ser jornalistas, e se os jornalistas de hoje são o que deveriam ser e preenchem o seu devido espaço, procurar perceber se há algo errado antes mesmo desta decisão.
O mundo está mudando, esperamos que para melhor. Recebemos sugestões.
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O Estatuto da (des)Igualdade Racial
junho 16, 2009 by Samuel Braun
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Sei que irão afirmar alguns que este texto é reacionário, que é a repetição do discurso social da classe dominante e tudo mais, mas isto certamente será dito por pessoas que lêem textos com pré-conceitos e pensamentos dogmáticos. Espero que alguns leiam-no com a mente aberta. Abaixo, um texto de Mauro Santayana:
Não é de meu hábito, mas inicio estas reflexões com reminiscências pessoais. No início dos anos 40, em instituição do Estado para meninos sem lar, convivi, diariamente, durante quase três anos, com mais de 200 companheiros, brancos, negros, mulatos, cafuzos. De vez em quando, recordo-me de um deles, e tenho dificuldade em lembrar exatamente a cor de sua pele. Em minha memória, só de alguns as características físicas, por inusitadas, se destacam. De modo geral deles me lembro com uma só cor, a cor da pobreza, algumas vezes tingida pela esperança, e, outras vezes, pálidas de permanente tristeza, que a solidariedade do grupo, discreta, quase muda, aliviava. Naquele pequeno mundo, em que tínhamos o mínimo – e nesse mínimo, a que não faltava a palmatória, não se incluíam sapatos, nem escovas para os dentes – o nosso consolo era o sonho comum de liberdade.
Penso muito nisso, quando, em nome da igualdade, pretendem instituir no Brasil uma noção que a ciência rejeita, a de raças humanas. Fico imaginando se, naquela comunidade a que pertenci, houvesse cotas cromáticas, a fim de que alguns dispusessem de atendimento especial pelos professores, tivessem um prato mais cheio, ou recebessem enxadas mais leves para o trabalho na lavoura. Se assim fosse, a nossa miséria seria insuportável. Os guardas, homens igualmente pobres, eram também negros, brancos, mestiços, e atuavam de acordo com sua personalidade, dois ou três com simpatia para com o nosso sofrimento, alguns com indiferença, outros com crueldade.
Sabemos que há também no Brasil o preconceito de cor, contra o qual há leis, e é necessário combater esta e todas as outras formas de discriminação. Em razão disso, é inadmissível o reconhecimento pelo Estado da diferença, mediante o proposto Estatuto da Igualdade Racial, que é claramente inconstitucional. O artigo V da Constituição, cláusula pétrea da Carta, não deixa dúvida: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade…” É natural e humano que os negros, submetidos secularmente à opressão, anseiem pelo ressarcimento histórico. Não se duvida da boa intenção do autor do projeto, que se destaca em sua atuação no Senado. Muitas vezes, a ânsia de justiça leva à ingenuidade. Se o Estatuto for aprovado, a harmonia entre os brasileiros estará ameaçada. Muitos negros não defendem a legislação proposta, porque acreditam que ela provocará desentendimentos entre os pobres, e se baseiam na experiência comum de que os que se diferenciam se excluem. Disso sabem, com sua penosa história, alguns povos antigos.
Só há duas raças humanas, e são raças sociais, não biológicas: a raça dos oprimidos e a raça dos opressores. Durante a escravidão, os brancos pobres dispunham de liberdade formal, estavam livres do tronco e das marcas a ferro, mas eram também oprimidos. Alguns serviam como feitores de escravos, mas os feitores mais cruéis, de acordo com depoimentos antigos, eram os próprios negros. E os negros comprados nas costas africanas eram capturados e vendidos por outros negros. A cor da pele não torna os homens melhores ou piores. Não os faz mais inteligentes ou menos inteligentes, mais honrados ou menos honrados.
É razoável que haja cotas para os pobres, negros e brancos, egressos das escolas públicas. O sistema atual de vestibular privilegia os que foram adestrados para responder aos questionários, mas não identifica os mais aptos. A experiência vem demonstrando que, nos cursos universitários, os bolsistas do Prouni, negros e brancos, se distinguem por sua aplicação e inteligência. Sabem que ali está a sua oportunidade e procuram não desperdiçá-la. A democracia, até onde podemos entendê-la, se baseia na oportunidade igual e no mérito. A qualificação das pessoas se faz na base de sua capacidade. As leis de Nurenberg classificavam os homens pela cor da pele, medidas do crânio e textura dos cabelos – e exigiam a identidade “racial” nos documentos. Mas foram revogadas em 1945.
O que existe, sim, é intolerável injustiça social que, em alguns casos, o preconceito exacerba e a lei coíbe, quando é aplicada. Que todos tenham o mesmo direito, homens e mulheres, negros e brancos, mestiços ou albinos. Eles constituem a única raça, a raça dos homens.
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A hora do Rush
abril 22, 2009 by Samuel Braun
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Esta semana a galera da UERJ que vem e vai de trem sofreu bastante. E não só ela, como todos na cidade do Rio.
Não é novidade nenhuma a precariedade dos transportes públicos do Rio de janeiro. Apesar de ser uma responsabilidade exclusiva do poder público, ou seja, do Estado e do Município, foi escolhido o caminho da terceirização, ou melhor, das concessões privadas. O Metrô, as linhas de ônibus, as barcas e o trem estão todas nas mãos de uns poucos empresários.
E, contrariando o “saber popular”, que poderíamos chamar de tabu do capitalismo, a privatização de um serviço essencial é uma completa catástrofe. Explicando melhor: Tudo aquilo que é essencial no entender das leis representa atividades, bens ou condições que são indispensáveis para o funcionamento de toda a sociedade, e para a preservação dos direitos básicos do ser humano. Ou seja, a educação, a saúde, a segurança e o transporte (dentre algumas outras coisas).
O que acontece é que a iniciativa privada não leva (e nem tem a essência de levar) em conta esta função social da atividade que desempenha. Para ela, representante do sistema de pensamento da concorrência de mercado, o que interessa é o lucro. No máximo, considera a possibilidade de fidelização do cliente e do bom marketing. Daí decorre a superlotação, a imposição de horários e trajetos, a exclusão e sub-atendimento de certas localidades e a prática de preços superfaturados.
Afinal, apesar de ser de todos o direito de ir e vir, apenas os que podem pagar (caro) e os que moram (bem) no trajeto destes meios de transporte efetivamente podem exercer este direito.
Esta semana os ferroviários entram em greve para denunciar as péssimas condições da supervia, com trens enferrujados, superlotados, viajando com portas abertas, enguiçando, parando de circular sem aviso prévio. E claro, exigindo mais segurança, mais contratações e melhores salários. Em resposta a isso, a supervia submeteu os passageiros (leia-se: cidadãos, reais donos desta concessão e que ainda pagam pra viajar) ao cúmulo da humilhação. Pouquíssimos trens, ultra-lotados e agentes açoitando, chutando e agredindo de todas as formas as pessoas. Fizeram cárcere privado, impedindo as pessoas de saírem dos trens, colocaram milhares de vidas em risco, submeteram a humilhação, terror psicológico, agressões verbais e físicas, dentre outras barbares. E um de seus diretores chamou, depois disso tudo, os passageiros de animais.
Os trens, assim como a maior parte dos transportes foram privatizados aqui no Rio na época de Marcello de Alencar (PSDB), no intuito de capitalizar o governo, desonerar a máquina pública, melhorar e modernizar o sistema de transportes e permitir a livre concorrência neste ‘mercado’. Mas o que ocorreu foi que o governo dele terminou com déficit, mesmo vendendo as barcas, os trens e o metrô, não desonerou a máquina pois foi do governo todo o investimento em recuperação das estradas, estações, etc (principalmente nas barcas e metrô), a modernização que houve foi toda bancada e articulada pelos governos, e não pelas concessionárias e o mercado ficou totalmente monopolizado, sem qualquer concorrência.
Hoje, o metrô anuncia sarcasticamente que está nos levando para o futuro, com mais espaço e mais moderno, mas na verdade é um eufemismo pra dizer que está tirando assentos pra caber mais gente se esmagando em pé. O metrô alardeia a facilidade e velocidade de viajar de trem, quando na verdade é um dos transportes mais descontrolados, apertados, perigosos e desrespeitosos com os passageiros (principalmente os deficientes e idosos).
Os ônibus são um caso a parte, e sobre ele farei matéria especial em breve. Mas o que realmente nos importa é destacar que o Rio precisa urgentemente de uma reorganização geral nos transportes. Preferenciar o transporte coletivo, em detrimento as superlotações das ruas com carros, vans e micros, investir no metrô e trem de verdade, não como é hoje, construindo uma estação a cada 5, 6 anos. Rever estas concessões, repassando-as com a obrigatoriedade de expansão financiada pelas concessionárias em um curtíssimo espaço de tempo, ou reassumindo o Estado o papel de gestor dos transportes.
Este é mais um dos fatos interessantes. Hoje, para ser uma concessionária, só precisa ter boa relação política e uma equipe técnica razoável para gerir o que já existe. Ou seja, os alunos da UERJ mesmo, se bem bancados politicamente, poderiam juntar engenheiros, economistas, advogados, administradores, gestores de políticas públicas (cientistas sociais, historiadores, etc), constituir uma empresa e tocar uma rodovia com pedágio, empresa de trem, enfim. Afinal, as concessionárias assumem, cobram pedágios, passagens e tudo mais durante décadas e investem 1% disso depois de anos. Que dificuldade!
É óbvio que exagerei na proposição da empresa uerjiana, mas de fato é isso. O carioca e o fluminense estão entregues a própria sorte. Governos saem e entram e nada fazem. Propostas de corredores expressos, articulação de ônibus, trens e metrô, criação de corredores T5, etc, etc, mas nada sai do papel.
E a questão lá do inicio persiste. Disto tudo, só restarão notas em jornais, puxões de orelha na concessionária? A concessão continuará nas mãos desta empresa? E o que fizerem os alunos da UERJ que dependem do trem esta semana? Foram chicoteados também? E a noite, como voltaram? Afinal, o trem parava as 9 da noite.
Uma coisa é certa, se acamparam na UERJ, não foi na reitoria.




